- Vamos fazer um acordo!? Não me chame de senhora, porque eu me sinto láááááááá em baixo. Eu prefiro que me chame de você!
Os pequenos olhos azuis me olham e brilham enquanto a vida de sessenta anos atrás era contada de forma saudosa. Naquele tempo, tudo era diferente. Uma época que não volta mais. Um passado de boas lembranças, no qual é fácil se perder em divagações e comparações com os dias atuais.
A voz trêmula, os cabelos um pouco ralos e brancos como algodão, a pele frágil marcada por oitenta anos de vida, pouco lembram a moça jovem de outrora.
Com problemas no joelho, hoje mal consegue andar. Vai a todos os lugares acompanhada de uma bengala velha amiga indesejada. Bons eram os tempos em que dançava nos bailes e clubes enquanto flertava com os rapazes durante as danças.
Nasceu numa cidade pequena de ruas sem asfalto, sem transito, poluição ou título de quinta maior metrópole do mundo. Alfaiates, chapeleiras e sapateiros faziam parte do comercio comum. Poucos desses lugares ainda resistem em meio a metrópole de arranha céus. Trinta, cinquenta, cem anos de funcionamento ininterrupto atendendo gerações de paulistanos.
Descendente de espanhóis, aos vinte anos arrumava namorados na fila do passe dos bondes da Light. Hoje aos 86 é viúva, mãe de duas filhas e mora sozinha há doze anos em um apartamento de um dos prédios símbolos da cidade da garoa: o Copan.
- Eu tenho saudade de quando o Tietê era limpo. Eu tinha um namorado que fazia regatas nas águas de lá. Era uma época muito gostosa, ver aquela turma de rapazes nadando no Tietê.
O lugar das lembranças nem parece a metrópole dos dias atuais. É uma outra senhora, idosa e com problemas de “saúde”. As veias estão entupidas e tem problemas de respiração.
- Aproveita a vida minha filha. Segue o meu conselho, não case cedo.
Ao se levantar, a velha amiga encostada ao balcão a esperava. Juntas deixaram a lanchonete lentamente, caminhando com dificuldade.
- A dona Consuelo é uma figura. Ela vem aqui todos os dias. Tem sempre muita história para contar.