Ainda posso me lembrar de quando meu pai chegou em casa com aquele objeto verde sustentado por pequena alça preta. Curiosa como sempre fui, mal podia esperar para descobrir o que havia ali dentro. Não era exatamente uma caixa, mas um objeto retangular, quase quadrado, com as bordas arredondadas, pesado e com dois pequenos botões pretos e redondos perto da alça, usados para abrir.
Quantos anos eu tinha? Não me lembro exatamente, mas certamente não mais que dez ou onze. Quando aquela tampa foi finalmente aberta, ali havia uma coisa estranha à minha primeira vista. Era repleto de letras de plástico cinza sobre hastes de ferro, e com um buraco em forma de meia lua mais acima, recheado de pequenas outras hastes mais finas e com letras talhadas em ferro na ponta, que hoje me remetem a Gutemberg. Para mim, aquilo era totalmente incomum, mas para minha mãe era muito familiar.
Nos tempos em que o computador era realidade apenas em pequenos círculos sociais das grandes metrópoles, aquele objeto reinava, e era indispensável em órgãos oficiais, principalmente nas pequenas cidades, como a que minha mãe cresceu. Ela logo passou a dissertar sobre suas lembranças e o curso de datilografia abandonado no meio.
O que meu pai trouxera era uma máquina de escrever, mais especificamente uma Olivetti Lettera 82, que seria minha. Ainda me lembro como era difícil digitar naquelas teclas duras, e meus dedos, pequenos e magrelos (isso não mudou muito) sempre se enganavam ao insistir em entrar nos vãos entre as letras. Eu gostava de às vezes passar horas ali, só digitando, coisas aleatórias. Certa vez resolvi digitar todas as receitas de minha mãe, que não eram poucas, por ela ter mania de começar a anotá-las dos programas de televisão e nem sempre terminá-las. Outra vez uma professora pediu que escrevêssemos um livro de matemática, como trabalho final (era sexta série), e como eu não tinha computador fiz o meu todo na Olivetti.
Conforme fui crescendo, a brincadeira ficou esquecida. Até que hoje resolvi reabrir a velha máquina de escrever. Difícil descrever as lembranças que me vieram à cabeça, e o sentimento de nostalgia só de sentir o cheiro de óleo exalado ao reabrir minha querida amiga, que ficou tantos anos esquecida sob sua dura capa verde. As teclas já não são tão duras como eu me lembrava, apesar de ainda serem estranhas ao atual costume do teclado de computador, tão leve e rasteiro. Também me pareceram menores, e uma coisa me chamou atenção em comparação à digitação atual, a falta da tecla de “@” inexistente naquela época, e essencial no dia-a-dia atual.
Como é bom relembrar os velhos tempos, nos quais eu mal podia imaginar que meu “brinquedo” era o maior símbolo do desenvolvimento da minha futura profissão. É… só com o passar dos anos que algumas coisas tão simples, num primeiro momento, passam a fazer sentido na nossa vida.
