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Linha 1984
- 1-9-8-4…1-9-8-4…1-9-8-4…
É a única coisa que se ouve. A escuridão, fria e tenebrosa não permite ver nada. Para todos os lados que se olhe nada se distingue, só a penumbra prevalece.
Não é possível mexer as pernas, a cabeça está pesada, os braços não obedecem e o corpo todo dói. Há um gosto amargo na boca, um cheiro estranho no ar, e a voz fraca ao fundo é a única coisa que pode-se ouvir, repetindo os mesmos números que não fazem o menor sentido.
-1-9-8-4…1-9-8-4…
Um calafrio. Nenhuma lembrança sobre o que pode ter acontecido. A cabeça dói na tentativa de se acessar as lembranças. O medo, a insegurança e a angústia aparecem, é difícil respirar. De repente um barulho.
-Bi-Bip…Bi-Bip…Bi-Bip
A mão trêmula se levanta e bate no criado-mudo sem sucesso, tenta mais uma vez até acertar o despertador, pequeno, simples, de cor azul e com o vidro trincado- resultado de outras tentativas matinais frustadas em acertá-lo- que todos os dias toca no mesmo horário, sem falhar.
Suando frio, e tremendo, ela se levanta vai até o banheiro, olha-se no espelho e agradece por tudo aquilo não ser real. Toma banho, se arruma e sai para o trabalho como faz todos os dias há 3 anos. Acorda ás seis da manhã e sai as seis e meia para pegar o ônibus a tempo de chegar no trabalho ás oito.
Rosana é operadora de telemarketing em um curso de idiomas. Odeia seu trabalho, mas com seus 25 anos e apenas Ensino Médio não é fácil encontrar outro emprego melhor.
Não ganha muito, apenas o suficiente para sobreviver. Mora com mais duas amigas dividindo o aluguel. Há quatro anos não vê a mãe e a família desde que saiu do interior de Minas em busca de emprego e oportunidade.
-Alô!?
-Alô! a senhora sabe que o inglês é muito importante nos dias atuais não é!? Pois nós estamos com uma super promoção para um curso de inglês de dois anos de duração…
-Não obrigada!
-Mas é uma ótima oportunidade senhora!
-Não estou interessada. E se é realmente tão bom então porque você não faz, arruma um emprego melhor e para de ligar na minha casa!?
Respostas como essa são comuns em um dia de trabalho.
-Alô!?
-Alô! Boa tarde! Faço parte da English School…
-Ih…nem vem. Não me interesso. Obrigada. TCHAU!
TU…TU…TU…
As pessoas costumam ser grossas.
-Oi!?
-Boa tarde! Faço parte da English School…
-Sim…
-O senhor sabe que o inglês é muito importante nos dias atuais não é!? Pois nós estamos com uma super promoção para um curso de inglês de dois anos de duração…
-Você pode esperar um minuto? Tenho que ver uma panela que está no fogo…
-Pois não…
-5 minutos depois-
TU…TU…TU…
O trabalho é cansativo e estressante.
-Alô!?
-Boa tarde! Faço parte da English School…
-Como vocês descobrem meu número?
-A senhora sabe que o inglês é muito importante nos dias atuais não é!? Pois nós estamos com uma super promoção para um curso de inglês de dois anos de duração…
-Que ódio! Não foi isso que eu perguntei. Você é surda!?
-É uma ótima oportunidade.
-Não obrigada. Não incomode mais por favor.
TU…TU…TU…
E a pressão é constante.
-Vamos meninas…olha a meta! Se não vende não recebe!
Ela não tem namorado. Não é bonita mas também não é feia, sai pouco e tem poucos amigos. Sem grandes ambições, seu maior sonho é rever a mãe, o que de certo vai demorar, visto que, mal consegue se sustentar com o que ganha.
Come mal, ultimamente está com falta de apetite, depressiva, sente-se esgotada.
Ás cinco sai do trabalho. Exausta, segue pela rua presa em seus pensamentos, lembra da mãe, imagina como odeia o trabalho, como o dia foi ruim e igual aos outros, e no ônibus lotado que irá pegar, tendo que ir em pé até em casa.
O trajeto até o ponto de ônibus é longo. A passos lentos ela continua a caminhar, é um caminho esguio, de iluminação sombria devido aos enormes arranhacéus; barulhento, de trânsito caótico. Mas ela nada percebe enquanto caminha, pé-ante-pé segue seu rumo; para, espera o semáforo abrir e atravessa, sem olhar para os lados, distraída.
Antes de chegar ao outro lado…um ônibus…em alta velocidade…vem em sua direção…a atropela. Isolada em seus pensamentos ela não percebe ele se aproximar, agora está presa entre as rodas.
A escuridão, fria e tenebrosa não permite ver nada. Não é possível mexer as pernas, a cabeça está pesada, os braços não obedecem e o corpo todo dói. Há um gosto amargo na boca, um cheiro estranho no ar. Silêncio. Fica feliz, não precisará mais voltar ao trabalho. Fica triste não verá mais a mãe. Acabou-se.
Na rua as pessoas se aglomeram, curiosas. Não é possível ver muita coisa. O resgate é chamado, não se pode fazer mais nada. No dia seguinte a notícia:
“Ônibus da linha 1984 perde freio, e desgovernado atropela e mata jovem.”
Ahownnnnnnnnnn
Mas não aceitou minha ideia, não valeu! u.u
Ah para Ades, que ficou bom.
Triste, mas bom.
1984 me lembra outras coisas, mas não sie o quê.
=S
Bom texto, Gleissekellyson! Nao tinha prestado mta atenção qnd vc leu na aula do rizzo. rs
ótimo esse texto … =]
gleides sempre dando um toque de frescor…agora até neve tem no blog!
hauihauiahaiuhaiuahiuahuiahiaa
=]
bjoooooooooossssssssssssssss