A antiga árvore de copa frondosa resiste ao tempo em frente à pequena casa branca. O muro baixo e o portão despretensioso destoam às muralhas da maioria das outras residências e prédios vizinhos.
Na tímida escada que liga a casa ao portão, uma senhora varre, concentrada varre as pequenas folhas que se acumulam no chão. A roupa confortável e a aparência despreocupada não indiciam a ocupação de professora universitária do curso de Direito. Naquele momento, o mais importante era reunir as folhinhas espalhadas na frente da casa.
- Eu molho sempre a árvore e junto folhas para adubo.
Parece que aquele espaço parou no tempo, esqueceu de se esconder atrás de muros e grades. Assemelha-se às cidades do interior do estado.
As plantas na frente da casa demonstram seu amor pela natureza. Pedaços de frutas se espalham pelo chão, e é possível ver alguns pequenos pássaros freneticamente em direção a eles. Todos os dias ela coloca um pedaço de mamão para que os sabiás, os bem-te-vis, as andorinhas e as maritacas venham comer.
- Aqui tem muitos pássaros por causa das árvores, isso é uma benção.
Convidada a me sentar, perto da porta em uma cadeira confortável de frente para minha anfitriã, passa a ser possível observar pelos vidros as estantes que vão de uma parede à outra, cobertas de livros. Ela se lembra de cada um deles, e os cita vez ou outra no meio da conversa:
- Eu sempre sorteio livros para meus alunos, para incentivar a leitura. Você já leu o livro “O direito à ternura”? É uma jóia.
No rosto, as marcas do tempo refletem seus setenta e quatro anos. Parte deles vividos como funcionária pública. Os olhos grandes contrastam com os cabelos castanhos de corte à altura das orelhas. Nunca deixa de se preocupar com a natureza. Uma de suas tristezas é a situação das árvores na metrópole.
- Elas estão comprometidas por cupins e precisam ser podadas, a gente enjoa de ligar para a prefeitura e nada.
Ah, as árvores. Centenárias e mal cuidadas a entristecem.
- A agonia das árvores é insuportável, incrível a resistência delas, a teimosia em resistir.
Os óculos passeiam dos olhos à mãos. A vassoura aguarda a hora de voltar ao trabalho, abandonado momentaneamente. Uma pilha de jornais velhos encostada está a espera da pessoa que sempre os leva à reciclagem.
- Falta às pessoas delicadeza, percepção, reflexão e poesia. Espera um pouquinho, vou te dar um presente de valor inestimável.
Devagar ela levanta, abre a porta de vidros basculantes, demora um pouco em meio a caixas e estantes cheias de livros, e volta com um pequeno volume entre as mãos.
- Toma, é uma cópia porque o livro está esgotado e eu só tenho um exemplar. Leia para entender como nossa sociedade está cheia de vários tipos de violência e com falta de consciência e amor. Você é uma gracinha. Tem uma caneta? Preciso registrar esse momento.
Pego a caneta, e ela escreve, uma dedicatória na capa do volume encadernado de “O Direito à Ternura”: Com admiração ofereço essa jóia! No meio das folhinhas de inverno…
Despeço-me. E posso ouvir enquanto me afasto que a velha vassoura voltou ao trabalho de reunir as folhas da centenária árvore, em frente à casa branca, na esquina de uma rua no bairro do Pacaembu.